sexta-feira, 31 de outubro de 2014
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Jesus
Cristo, com sua práxis libertadora, revelou e apresentou outra dinâmica de se
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relacionar
com Deus Pai. A práxis de Jesus expressou a expectativa escatológica profética
no
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resgate
dos pobres e oprimidos no contexto sócio-econômico-político-cultural; sobretudo
na
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convivência
com as mulheres, crianças, leprosos e pecadores, Jesus Cristo demonstrou o amor
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de
Deus em plenitude do resgate da dignidade deles. Na práxis de Jesus, a lei da
aliança
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apresentou
um Deus que é amor, diferente do Deus da Lei e sacrifícios. É essa nova relação
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Pai-Filho
entre Deus e o homem que Jesus comunica e como expressão de gratuidade e
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misericórdia
em prol dos desprovidos dos seus direitos e dignidade, restabelecendo o bem-
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estar
social, ético e moral negado aos considerados indignos e impuros.
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Na
sua opção pelos pobres e oprimidos, a práxis libertadora da fé existente em
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Jesus,
revela a plenitude do amor de Deus-Pai; uma vez que a sua atenção voltava-se para
os
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pobres,
cegos, coxos, aleijados, leprosos, famintos, miseráveis, pecadores, prostitutas,
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coletores
de impostos, endemoninhados, perseguidos, esmagados, cativos, trabalhadores,
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camponeses,
pescadores, pastores, doentes, mendigos, pagãos. Diante de todos esses, que de
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uma
ou outra maneira eram excluídos pelas atitudes e leis da instituição religiosa,
a práxis de
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Jesus
demonstra que tal exclusão não corresponde à vontade de Deus. Sendo assim, porém,
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essa
práxis contém também um forte apelo transformador.
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Nessa
perspectiva, a práxis libertadora da fé revelada por Jesus levou as pessoas a
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um
agir transformador. Jesus anunciou o Reino escatológico de Deus como próximo,
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perceptível,
salvando e incentivando a decisão, sendo que com sua vida Ele expressou o reinar
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41 |
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de
Deus agindo na história. A práxis de Jesus demonstrou que Ele é também libertador
porque
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realizou
a libertação integral, ou seja, com todos os direitos necessários às condições
de
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subsistência
dos filhos e filhas de Deus no contexto sócio-econômico e político-religioso no
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mundo
judaico de seu tempo.
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Verifica-se
nos evangelhos que a práxis libertadora da fé de Jesus causou uma
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ruptura
de perspectiva de oposição com os ensinamentos do Templo, uma vez que o Templo
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era
o centro do poder sócio-econômico e político-religioso, sustentando-se sob a ideologia
do
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puro/impuro,
sacrifícios e descendências familiares. Nesse contexto, Jesus com seu agir
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transformador,
anunciou a ruína do Templo. O seu discurso escatológico começa com a
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predição
da destruição do templo (Mc 13, 1-4; Mt 24, 1-3; Lc 21,1-7) 107.
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3. Jesus e o Templo: uma relação de oposição
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Verifica-se
pelo processo histórico e nas Sagradas Escrituras que o Templo era,
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sob
diversos pontos de vista, o centro do poder sócio-econômico e político-religioso
do tempo
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de
Jesus. O primeiro Templo foi construído por Salomão e destruído por Nabucodonosor
em
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587
a.C., quando Jerusalém foi conquistada 108. Desse
modo, através de pesquisas confirma-se
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que
“o segundo Templo foi totalmente reconstruído por Herodes, aproximadamente na
época
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do
nascimento de Jesus, e foi destruído em 70 d.C. pelos romanos” 109.
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A construção
do Templo por si só impressionava:
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É verdade
que os contemporâneos de Jesus deviam ficar estupefatos
quando,
ao chegar ao topo duma colina, descobriam a cidade, que tinha no
meio
uma torre de 50 m de altura (o equivalente a um arranha-céu de
quinze
andares), plantada num imenso terrapleno de 480 m de
comprimento
por 300 m de largura, que dominava boa parte da cidade e
|
|
107
|
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108
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Cf. MORIN, É. op.cit, p.91
Cf. SAULNIER, C.; ROLLAND, B. A Palestina no tempo de Jesus. São
Paulo: Paulus, 1983, p. 37.
109Cf.
OTZEN, B. O judaísmo na antiguidade
A história política a as correntes religiosas de Alexandre Magno
até
o imperador Adriano. São Paulo: Paulinas, 2003, p. 131.
www.faculdadeassuncao/nelsonmendesvasconcelos
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quarta-feira, 29 de outubro de 2014
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Estas
reflexões, em que o enfoque principal se concentra na Práxis Libertadora da Fé
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revelada
por Jesus, têm por objetivo apresentar o significado da Ressurreição do Senhor
como
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base
para a práxis libertadora da fé, sendo esta compreendida a partir de pesquisas
como todo
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processo
de salvação e libertação integral de Jesus Cristo, contribuindo – assim – para
que o
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agir
do homem seja imbuído de idéias e de ações transformadoras no que se refere às
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estruturas
convencionais presentes na sociedade de hoje, nem sempre alicerçadas nos
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ensinamentos
evangélicos, a fim de que se possibilite a construção do Reino de Deus,
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revelado
por Jesus. Dessa forma, é válido dizer que um novo céu e uma nova terra são
|
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possíveis,
à medida que se compreende o Reino de Deus de acordo com a expectativa
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profético-escatológica
concretizada na práxis libertadora da fé de Jesus. Ter como
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fundamento
para essas reflexões as palavras de Jesus contidas nas Sagradas Escrituras: “O
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Espírito
do Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-
|
|
Nova
aos pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e, aos cegos, a recuperação
|
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da
vista; para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça
do Senhor,
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compreendido
no exercício de sua práxis libertadora” 1, é
fundamento sólido para que se
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acredite
e se ponha em prática o “Reino de verdade e de vida, Reino de justiça, de amor
e de
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paz”
2. Alicerçados na ressurreição, sendo esta a legitimação por parte
de Deus-Pai da
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salvação
integral em prol de seus filhos e filhas pela práxis de Jesus Cristo é possível
dizer
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que,
“as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje,
sobretudo dos
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pobres
e de todos os que sofrem, também foram as alegrias e as esperanças, as tristezas
e as
|
|
angústias
dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não
|
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lhes
ressoe no coração. Com efeito, a comunidade do Nazareno se constituía de homens
que,
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reunidos
em Seu Nome, eram dirigidos pelo Espírito Santo na sua peregrinação para o Reino
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1
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|
2
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Cf.
Lc 4, 17-19
Cf.
COMPÊNDIO DO VATICANO II. Constituição Pastoral - Gaudium et Spes. n º.
39.
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9 |
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do
Pai. Seus membros aceitaram a mensagem da salvação. Mensagem que deve ser proposta
a
|
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todos.
Nesse sentido, a comunidade cristã de hoje se sente verdadeiramente solidária
com o
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|
gênero
humano e com sua história”3.
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Entende-se
que os tempos são indicadores de que a miséria e a pobreza, estados
|
|
decorrentes
de injustiça, de desamor e de conflitos, crescem gradativamente em determinadas
|
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regiões
do mundo, especialmente tendo-se em vista os países do Terceiro Mundo. Assim,
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importantes
órgãos oficiais têm se preocupado em realizar pesquisas sociológicas com o
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intuito
de, através de estatísticas, pôr em relevância as colocações acima citadas. Dessa
forma,
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também
a Doutrina Social da Igreja
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4
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apresenta
a justiça da práxis de Jesus como forma de
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salvação
integral dos filhos e filhas de Deus no contexto sócio-econômico e político-cultural.
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|
Nesse
aspecto, associa-se a injustiça a pobreza, miséria e inclusão social, “sendo que
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estimadamente
existam hoje cerca de 850 milhões de pessoas que passam fome no planeta”5,
|
|
e “aproximadamente
56 milhões de pessoas vivem com menos de um terço do salário mínimo
|
|
no
Brasil” 6 . É nesse sentido, que se entende toda a dimensão da Escatologia,
pois esta não se
|
|
restringe
somente à doutrina das coisas últimas ou salvação da alma, nem ao resgate do
|
|
indivíduo
cativo do mundo maligno ou ao conforto da consciência atormentada, mas e –
|
|
principalmente
– à esperança da realização escatológica do Reino de Deus através dos atos de
|
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justiça,
de gestos de humanização, de fatos promotores da libertação da miséria, de desejos
de
|
|
paz
para toda a ordem criada. Considerando-se tais afirmativas como assento teológico
da
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|
práxis
de Jesus de Nazaré, percebe-se o quanto é importante e necessário o binômio
|
|
Cf. Ibidem.
PONTIFÍCIO CONSELHO “JUSTIÇA E PAZ”. Compêndio da Doutrina Social da Igreja;
tradução
Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil. São Paulo: Paulinas, 2005, p. 122.
5COMISSÃO
PASTORAL DA TERRA. Sem fome e opressão
a aliança com os pobres é libertação: 21ª
Romaria
da Terra do Paraná. Curitiba: CPT, 2006, p. 3.
6CONFERÊNCIA
NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Exigências éticas da ordem democrática (Doc.
CNBB
42). São Paulo: Paulinas, 1989, p. 14.
|
|
4
|
|
3
|
10 |
|
proclamação/instauração
do Reino de Deus, uma vez que tais elementos que o compõem se
|
|
constituem
no objetivo primaz da missão de Jesus: “pois foi para isso que fui enviado”7 .
|
|
Em
Jesus, o Reino de Deus está próximo e já é realidade presente8 . Na
verdade, é um
|
|
acontecimento
que coincide com sua pregação e ministério, sendo ele mesmo, Jesus, a Boa-
|
|
Notícia,
como se refere a ele o evangelista, pois através do anúncio e da práxis do Filho
de
|
|
Deus,
Deus mesmo intervém de maneira decisiva e definitiva na história humana9.
|
|
A vinda
do Reino é reconhecível pela fé nos sinais que Jesus realiza, isto é: no sentar-
|
|
se
à mesa com os pecadores10, nos milagres11, nos exorcismos12, na
escolha dos Doze, no
|
|
anúncio
da Boa Nova aos pobres13, no reconhecimento e na valorização da dignidade das
|
|
mulheres,
nos gestos de salvação e libertação em favor dos pobres, humildes e pecadores14. O
|
|
Reino
de Deus é, sem dúvida, um acontecimento que se manifesta no coração humano, pois
a
|
|
relação
com Deus pela fé e pela conversão é interior. De outro lado, porém, também se
|
|
manifesta
nas relações entre as pessoas e nas estruturas que lhes correspondem. “No centro
do
|
|
acontecimento
do Reino, está, de um lado, a auto comunicação de Deus que é Pai, com o qual
|
|
Jesus
vive a intimidade única a ponto de chamá-lo Abba (papai)”
|
|
15
|
|
e,
de outro, a sua
|
|
predileção
pelos pobres, pelos últimos, pelos pecadores16. Esta
práxis libertadora da fé de
|
|
Jesus
deve ter sempre determinadas conseqüências, favorecendo o crescimento de alternativas
|
|
em
prol do resgate da dignidade dos pobres, miseráveis e excluídos um vez que também
são
|
|
imagem
e semelhança de Deus-Pai. Nessa perspectiva, torna-se possível redescobrir o outro,
|
|
7
|
|
8
|
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Lc 4, 43
Mt 12, 28
9Cf.
Lc 17, 20-21
10Mt
9, 12
11Mt
11, 4-5
12Mt
12, 25-28
13Mc
1,15
14Mt
11,2-6
15Cf.
Mc 14, 16
16Mc 5,
3
|
11 |
|
sobretudo
o último, o pequeno, o pobre, o inimigo, o estrangeiro como irmão17 . Por
isso, o
|
|
Reino
diz respeito a todos: às pessoas, à sociedade, ao mundo inteiro; trabalhar pelo
Reino
|
|
significa
reconhecer e favorecer o dinamismo divino que está presente na história humana
e a
|
|
transforma;
continuar construindo o Reino de Deus é trabalhar para a libertação do mal, sob
|
|
todas
as formas, no contexto sócio-econômico político-cultural. Em síntese, o Reino
de Deus
|
|
manifestado
na práxis libertadora da fé de Jesus, aponta para o seguimento de todos os
|
|
cristãos
e pessoas que praticam a justiça do Reino em prol da vida, liberdade, educação,
|
|
moradia
e justiça social como meio de erradicação da fome e da miséria.
|
|
A ressurreição
como base para a práxis libertadora da fé é fundamento para que se
|
|
resgatem
as propostas do Concílio Vaticano II, sendo possível perceber, a exemplo da práxis
|
|
de
Jesus, no ser humano excluído e miserável, a presença de Deus, o “rosto de Deus”,
com
|
|
anseios
de libertação no contexto sócio-econômico político-cultural.
|
|
Essa
evangelização, a partir do grande fundamento que é a ressurreição de Jesus
|
|
Cristo,
também deve nortear e fundamentar o anúncio que se faz do Evangelho para o ser
|
|
humano,
numa cultura pós-moderna, buscando superar aporias e dualismos através da
|
|
presença
de um Deus vivo, que quer ressuscitar a pessoa em sua plenitude, tendo como
|
|
exemplo
histórico-escatológico-salvífico a ressurreição de Jesus e a subseqüente confirmação
|
|
da
sua práxis libertadora da fé. Assim, a aliança de Deus com o ser humano adquire
um
|
|
sentido
maior no evento histórico-escatológico-salvífico da ressurreição de Jesus com
sua
|
|
práxis
libertadora da fé, fonte de inspiração para que a Igreja e todos que praticam
a justiça do
|
|
Reino
de Deus continuem como “discípulos e missionários de Jesus Cristo para que n’Ele
|
|
nosso
povos tenham vida” 18. A ressurreição dos mártires e de forma especial a ressurreição
|
|
17
|
|
18
|
|
Cf. Mc 12, 28
CELAN. Rumo à V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe.
São Paulo: Paulinas,
2005,
p. 01.
|
|
12
|
|
de
Jesus ratificam por parte de Deus-Pai que agiu na história, a legitimação do agir
deles com
|
|
alternativas
em favor da justiça do Reino, contra aquelas forças e instituições que os mataram.
|
|
Nessa
reflexão, essa confirmação é a deslegitimação das forças e das instituições que
|
|
promoveram
a morte dos mártires e de Jesus.
|
|
Na
exortação apostólica Ecclesia in America,
1998, falando sobre os pecados sociais
|
|
que
clamam aos céus, afirma o Papa João Paulo II que domina cada vez mais, em muitos
|
|
países
americanos, um sistema conhecido como neoliberalismo, sistema esse que, apoiando
|
|
uma
concepção economicista do homem, considera os lucros e as leis de mercado como
|
|
parâmetros
absolutos em prejuízo da dignidade e do respeito da pessoa e do povo. Nesse
|
|
aspecto
a práxis de Jesus com alternativas em favor da vida e da dignidade dos pobres,
|
|
miseráveis
e excluídos, supera tais discrepâncias sócio-econômica e política-cultural, cientes
|
|
que
os pobres, miseráveis e excluídos são sempre mais numerosos, vítimas de determinadas
|
|
políticas
e estruturas freqüentemente injustas 19.
|
|
A Ressurreição,
como base para a práxis libertadora da fé, é um forte apelo para que
|
|
seja
possível reassumir a eclesiologia do Concílio Vaticano II, onde a práxis do homem
tenha
|
|
elo
com a de Jesus, saciando a fome de justiça e de liberdade do ser humano neste
mundo
|
|
globalizado.
O ser humano, por ser sempre um valor em si é por si imagem e semelhança de
|
|
Deus
Pai. Exige ser considerado e tratado como tal e nunca ser considerado e tratado
como
|
|
um
objeto que se usa, um instrumento, uma coisa. De todas as criaturas terrenas,
só o homem
|
|
é pessoa,
sujeito consciente e livre e, precisamente por isso, centro e vértice de tudo
o que
|
|
existe
sobre a Terra20.
|
|
Cf. JOÃO PAULO II. Ecclesia in América Exortação
Apostólica Pós-Sinodal. São Paulo: Paulinas, p. 56.
Cf. CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL.
Exigências éticas
da ordem democrática
(Doc.
CNBB 42). op cit, p. 24
|
|
20
|
|
19
|

13 |
|
A experiência
da práxis libertadora de Jesus é a experiência de ser chamado a lutar
|
|
sempre
de novo contra todo o tipo de coisificação da pessoa humana, na direção de uma
|
|
humanidade
livre e solidária. O reconhecimento afetivo da dignidade pessoal de cada ser
|
|
humano
exige o respeito, a defesa e a promoção dos direitos da pessoa humana: direito
à vida
|
|
desde
o instante de sua concepção; direito à liberdade, à igualdade, ao trabalho, à
prática
|
|
religiosa,
à educação, à saúde, à segurança e aos demais meios necessários para uma vida
|
|
digna
21.
|
|
A solidariedade
é uma opção pela vida e pela justiça. Como afirmou João Paulo II, ela
|
|
implica
as decisões econômicas, o fato de sentir a pobreza alheia como própria, de fazer
carne
|
|
sua
a miséria dos marginalizados, e, em vista disso, de atuar com rigorosa coerência.
|
|
Atualizar
nesse aspecto a práxis de Jesus frente aos novos desafios principalmente do
|
|
neoliberalismo
e da globalização, fome, injustiças sociais e como alternativa o
|
|
redescobrimento
da Teologia da Libertação no contexto latino americano, não se trata
|
|
somente
da profissão de boas intenções, mas da decidida vontade de buscar soluções eficazes
|
|
no
plano técnico da economia, com clarividência, que dá o amor e a criatividade,
que brota da
|
|
solidariedade22.
|
|
Verifica-se
por vias empíricas que as conferências realizadas pelo Episcopado Latino-
|
|
Americano
têm ratificado a importância de sempre redescobrir as opções de Jesus Cristo em
|
|
favor
dos pobres, miseráveis e excluídos, uma vez que as gritantes desigualdades, que
já
|
|
duram
séculos, enraizaram profundamente, tanto nos privilegiados quanto nos oprimidos
e
|
|
destituídos
de posses, hábitos mentais e formas de comportamento, de autoritarismo e de
|
|
21
|
|
22
|
|
Cf.
Ibidem, p. 25
Cf.
Ibidem, p 26.
|
14 |
|
conformismo
ou servilismo, de ganância ou de resignação, que devem ser transformados no
|
|
contexto
sócio-econômico político-cultural 23.
|
|
A injustiça
social assume proporções de ofensa a Deus, o qual nos criou a sua imagem
|
|
e semelhança,
e se opõe ao mandamento do amor fraterno que Jesus Cristo instituiu como lei
|
|
da
nova e eterna aliança. De tal maneira, o resgate da dignidade dos pobres não pode
limitar-
|
|
se
à assistência emergencial, mas exige a transformação da sociedade e da economia
numa
|
|
nova
ordem voltada para o bem comum.
|
|
É bem
verdade que, à medida que a práxis libertadora da fé praticada por Jesus e
|
|
assumida
pelo homem é alicerçada na ressurreição, a vida adquire novo sentido através do
|
|
amor-doação
em favor do ser humano desprovido dos seus direitos à subsistência e realização.
|
|
Dessa
maneira, no que concerne à vida dos seres humanos latino-americanos, empobrecidos
e
|
|
miseráveis,
tem-se a constatação de que a práxis libertadora da fé deve fazer parte da
|
|
existência
humana como protótipo de libertação, favorecendo a ética e a moral que
|
|
impulsionam
a cultura da solidariedade e paz para a formação de uma nova sociedade, onde
|
|
todos
tenham vida, voz e vez no contexto sócio-econômico, político-cultural.
|
|
O objetivo
da dissertação é o de continuar contribuindo para que a Igreja e todos que
|
|
praticam
a justiça do Reino de Deus continuem resgatando a dignidade dos pobres, miseráveis
|
|
e excluídos
no contexto sócio-econômico e político-cultural, uma vez que também são
|
|
imagem
e semelhança de Deus.
|
|
23
|
|
Cf.
Ibidem, p. 35.
|
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